Tarde demais para ser eu mesma?

No sétimo dia consecutivo de insônias que me deixam acordada até as seis da manhã, encontro-me esmagada por um peso muito maior que o cansaço e que me prega no sofá durante o dia quase inteiro, acompanhando pela bendita telinha portátil as vidas de gente que admiro e que finalmente está recebendo o reconhecimento que merece. Olho para eles com um senso de orgulho e fraternidade, como se fossem amigos queridos pelos quais sempre torci; agora, vejo-os colher os merecidos louros de suas vitórias com imenso carinho. São artistas que não chegaram agora no ofício, mas chegaram agora na fama. E são pessoas genuinamente bondosas, generosas, sensíveis, atenciosas, inteligentes e trabalhadoras. Tão parecidas comigo. Mas são, acima de tudo, pessoas que nunca desistiram de si mesmas: parece que sempre souberam o que queriam ser, lutaram por isso com todos os altos e baixos, encararam com o peito aberto a possibilidade que todo artista tem de se tornar “apenas mais um” e não recuaram. Persistiram. Porque, se não fossem artistas, não saberiam viver de outro jeito. Mas, junto ao orgulho e carinho, um sentimento bem menos nobre permeia as bordas do meu coração, pois esses queridos desconhecidos estão me fazendo olhar para a minha própria vida e sentir: eu fiz tudo errado.
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Sabem aquela criança artística que sempre gostou de contar histórias, escrever, pintar, desenhar, atuar, dançar? Eu era uma dessas. Sempre tirando dez em Artes, História e Linguagens e ficando de recuperação em Exatas; enfrentando problemas por ser sensível e ingênua demais até mesmo na adolescência. E sempre me expressando da forma mais genuína e crua através da escrita: desde os poemas dos famigerados treze anos – quando a gente descobre que o mundo não é um bolinho e que os adultos mentem – até as cartas que eu trocava com minha mãe depois das brigas homéricas. Por escrito, a reatividade de ambas cedia espaço à organização dos sentimentos e, diferente das palavras soltas no vento, as cartas permitiam que os revisitássemos para serem lidos e relidos até que os entendêssemos ou aceitássemos. Toda vez que eu lia meus textos para alguém ou postava em alguma rede social, vinha o comentário: “você escreve muito bem, devia ser escritora”. Eu, às vezes, nem agradecia; sorria e aceitava apenas como um elogio e nada mais. Que exemplos de escritores eu tinha realmente perto de mim? Nenhum. Os poucos poetas urbanos que conheci pelas minhas andanças não viviam uma vida que eu considerava adequada para mim (ou a que fui ensinada a considerar adequada). Aquele conceito de que “artistas e intelectuais que não nasceram ricos terminam frustrados fazendo qualquer coisa pra se sustentar” fez com que eu trancasse a parte mais essencial da minha personalidade dentro de um baú. E lá fui eu, tentar ser normal.

E eu tentei – Deus, como eu tentei. E agora, mais perto dos quarenta do que dos trinta e depois de todo tipo de jornadas de autoconhecimento e muitas (mesmo) experiências profissionais, eu posso afirmar que falhei miseravelmente. Desperdicei toneladas de recursos, saúde mental e tempo precioso tentando me encaixar num mundo que sempre me cuspia para fora dele pelos motivos mais rasos e frustrantes. Há alguns meses resolvi abraçar quem eu sou de verdade e comecei a traçar os passos da minha revolução pessoal: estabeleci metas, comecei cursos, projetos. E agora estou empacada. Não porque eu não queira mais mudar meus rumos ou não acredite no meu potencial, mas porque agora que me dei conta de quem eu sempre deveria ter sido e do quanto demorará para que eu seja reconhecida por isso, a inexorabilidade do tempo me atinge como um sol caindo do céu direto em cima da minha cabeça. Essas pessoas maravilhosas, esses artistas incríveis que eu tenho acompanhado, estão colhendo seus merecidos louros décadas depois de terem começado. Décadas. Eles tem hoje a minha idade ou pouco menos – mas eu, começando agora e se tiver a mesma sorte, “chegarei lá” bem depois dos cinquenta. Eu me olhei no espelho esses dias e vi que eu ainda aparento menos idade do que tenho, mas já há linhas de expressão, manchas de pele, cicatrizes, flacidez e um olhar cansado e triste. Sim, eu ainda tenho umas boas décadas de vida pela frente, mas não de juventude. Esta já está se despedindo. Atingi, com isso, o ponto da caminhada do autoconhecimento que ninguém me avisou que existia: o fim dela (ou o que parece ser). E estou espiralando para baixo ao invés de para cima.

E desde então eu tenho chorado, esmagada pela sensação de que perdi meus melhores anos tentando ser qualquer coisa menos aquilo que eu estava destinada a ser. Se eu não tivesse tido tanto medo lá atrás, não estaria sendo paralisada por ele agora – justo agora que eu finalmente descobri quem sempre fui debaixo da superfície e das máscaras sociais e tenho as ferramentas e suporte para sê-lo. Eu sei que esses meus ídolos comeram maus bocados para ter o que tem hoje, mas, de certa forma, eu os invejo por terem sabido desde sempre quem queriam ser. Não se permitiram dobrar nem desviar; lutaram contra todas as imensas probabilidades de serem “apenas mais um artista” passando dificuldades materiais e emocionais, e venceram. Quando e se a minha vitória vier, quem realmente aproveitará as recompensas? Os filhos que eu quero, mas não tive capacidade de ter até agora? Porque, nisso também, o tempo está contra mim. Me encontrei no meio do caos de mentiras e ilusões que subjuga tantas pessoas e deveria estar comemorando – mas não sei se ainda vale a pena me libertar ou se devo só me conformar que “perdi o bonde”, continuar preocupada apenas com pagar as contas e passar o bastão para quem está chegando agora e tem mais chances do que eu.

Depois de tanta busca, eu finalmente me encontrei. E, assoberbada pelo arrependimento e pelo medo, paralisei.


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